Hoje, a Igreja inicia a Semana Santa com o Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor. Ao recordar a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e, ao mesmo tempo, proclamar solenemente a narrativa de Sua Paixão, a Liturgia introduz os fiéis no mistério central da fé cristã: a cruz que conduz à ressurreição.

A participação na Liturgia é a principal fonte da Espiritualidade Cristã. A Liturgia não é somente prática e palavra, mas há um espírito, um sentido espiritual que move as celebrações litúrgicas.

O Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor abre a Semana Santa. A celebração une o louvor com ramos ao Senhor, que se assume como descendente de Davi, portanto, Rei (Mt 21,4-5), mas este Rei vai morrer na cruz, o Seu trono é a cruz, por isso há a narração da Paixão. O fiel precisa se unir à Paixão e morte do Senhor Jesus para com Ele ressuscitar, assim esse é o fio condutor da espiritualidade desse dia.

Listemos alguns elementos dessa espiritualidade litúrgica:

1.  “Celebrando com fé e piedade a memória desta entrada, sigamos os passos de nosso Salvador para que, associados pela graça à Sua cruz, participemos também de Sua ressurreição e de Sua vida” (São Paulo VI, Missal Romano, p. 216). A celebração deve ser feita com fé e piedade, uma entrega filial perfeita a Deus. Essa piedade é marcada por seguir os passos do Senhor que carrega Sua cruz. Esse seguir não é pela própria força do fiel, mas na graça. A graça nos une à cruz de Cristo para assim um dia ressuscitarmos com Ele (cf. Rm 6,3-11).

2.  Os ramos são abençoados e com alegria se segue em procissão. Um testemunho público, imitando o povo que aclamou Jesus, agitamos os ramos proclamando publicamente que Jesus é Rei. Os ramos nos representam. Uma planta frágil que existe naquele momento somente para louvar o Senhor e depois murchará. Lembramos do Salmo: “Vós os arrebatais: eles são como um sonho da manhã, como a erva virente, que viceja e floresce de manhã, mas que à tarde é cortada e seca” (Sl 89,5-6). Temos uma vida que passa e deveria passar no louvor ao Senhor proclamando-O Rei.

3.  Na Liturgia da Palavra, Jesus é apresentado como o Rei descendente de Davi que, ao assumir o trono da cruz, transforma o sofrimento físico e moral — da traição de amigos à omissão e inveja do mundo atual — em um ato redentor e vitorioso sobre a mentira. Sua entrega suprema nos ensina que as dores cotidianas, quando unidas ao Seu sacrifício, deixam de ser vãs para se tornarem caminhos de salvação, capacitando-nos a carregar nossa própria cruz e a “morrer” diariamente no Espírito até a entrega final ao Pai.

4.  Enfim, a Oração Eucarística, com o Prefácio da Paixão, rezamos o sofrimento de Jesus e sua morte que apagou nossos pecados e nos trouxe a graça da Ressurreição (São Paulo VI, Missal Romano, p. 216).

Esses pontos precisam estar em nossa Espiritualidade Litúrgica nesse grande Domingo. Assim, ao iniciar a Semana Santa, o Domingo de Ramos não se reduz a uma recordação simbólica, mas se torna um convite real à conversão. Aquele que hoje é aclamado com ramos é o mesmo que será contemplado na cruz e glorificado na Ressurreição.

 

Padre Micael de Moraes, Sjs 

Pároco da Paróquia Nossa Senhora de Pentecostes  

e São Francisco de Assis